sábado, 4 de março de 2017

7.

J. não pensava em voltar ao Brasil.

A situação política do país, porém, era favorável.

Em São Paulo, soube logo onde encontraria apoio. Escondeu-se nas igrejas periféricas da cidade. Escondeu-se bem, muito bem. Manifestava-se às vezes, dando susto nas pessoas. Línguas estranhas e incompreensíveis eram muito admiradas pela população local, quase da cidade. Uniu algo que estava há tempos caindo, queimando, quebrando.

Procurou se afiliar a partido. Partido não havia. Os que existiam estavam manchados de sangue. Ele detestava sangue por motivos biográficos. Criou uma nova esquerda, desta vez sim legítima. TODOS, chamava o partido. Logo conseguiu aprovação no órgão eleitoral competente e articulou financiamento público com os menos favorecidos. Primeiro São Paulo. Sua fama se disseminou no Sul, que o via como figura diferente do restante do cenário político. No Nordeste, embora tardiamente, seu retrato em pequenas folhas teve também grande impacto.

Usou cores, muitas. Um novo tipo de design, pensado por voluntários altamente competentes mobilizou cultura de massa, erudita e grandes teorias da intelectualidade paulista na veiculação de sua campanha. J. sabia de tudo. Media certo, pesava bem, tinha os olhos corretos, a boca sensível. Juntou o professorado ao mais humilde vendedor de maçãs. Dizia corretamente palavras e nomes.

Decidiu candidatar-se às eleições nacionais, mesmo sem ter ocupado grandes cargos na gestão pública ou demonstrado quais medidas seriam efetivamente implantadas em caso de vitória. Não foi fácil. No segundo turno, frente a outro candidato de esquerda, teve de utilizar um pouco dos grandes escândalos em curso no judiciário. A mídia, receosa, não o acolheu de imediato. Precisou grandes discursos, utilizou parábolas com peixes que poucos entendiam e causavam comoção.

Suas primeiras ações foram curtas. Dissolveu o legislativo. Não se acreditava mais no legislativo. Acumulou as funções de propositor e promulgador, facilitando a tramitação de leis e realizando a reforma política tão almejada pelo país. Com seis meses, tinha aprovação de grande parte da sociedade brasileira. As manifestações se encerravam facilmente com a abertura de portas de seu gabinete. Estava sempre à disposição da oposição, que se enfraquecia com as ternas palavras do grande líder. Assim que era acusado de algo, chamava os principais jornalistas de redes de televisão concorrentes e tudo se elucidava num chá às cinco da manhã (acordava cedo também).

Investidores investiram em peso no país. Nunca na história houve tão rápido crescimento do PIB, redução dos índices de analfabetismo e melhora da infraestrutura. Trens voltaram a existir e uma certa nostalgia tingiu as nuvens verde-amarelas.

J., após sete anos de mandato e um país em ordem convocou a imprensa para uma grande declaração. Entre dois de seus principais aliados disse palavras maravilhosas ao meio-dia do meio do país. O céu azul de Brasília se manteve forte enquanto era cortado pela ascensão do grande homem.

Todos aplaudiam extasiados.