atravessou a parede lentamente.
aos poucos, descolou a parte que dividia dentro
de fora
invadiu o espaço assim mesmo feito o som
feito o susto,
outra parede.
Parede.
Parede.
O que diferencia a que recorta a casa da que guarda os olhos?
não se sabe muito bem a origem.
certamente existe uma origem.
Lugar de onde saiu para entrar assim em casa sem bater.
Passantes afirmam terem visto faíscas na Purpurina.
mas também, quem escolheu morar nesse lugar
fosse gente certa morava aqui
os vizinhos acudiram
A polícia não
demorou pra chegar
o vermelho combinava com a parede
amarela
ela estava sozinha
bala perdida também alcança gente sozinha
(e o que mais tem em São Paulo é gente sozinha)
ela acreditava terrivelmente no amor
mas não amava não
antes
havia deixado os sapatos na beira da porta,
fechado a porta,
cumprimentado o porteiro,
oi porteiro,
descido do metrô,
saído do cinema,
chorado no cinema,
comprado um ingresso no cinema,
a princesa vai ver o filme sozinha?
cuidado, é de chorar,
dançado ella fitzgerald com a sombra do poste enquanto andava do metrô ao cinema,
descido do metrô, entrado no metrô e optado por ouvir ella fitzgerald,
posto o fone de ouvido, fechado a porta,
posto os sapatos e
tropeçado
neles
enquanto percebia que estava atrasada para o filme
guardou essa e outras noites para si
dentro das paredes
não falou com ninguém
a capacidade paulistana de criar segredos cotidianos
não se sabe muito bem se estava triste
feliz não estava
ainda se discute como a bala chegou no terceiro andar
questão de física.
Os moradores de Pinheiros estão desolados
excluídos da proteção estatal
a violência persiste
no bairro cada vez menos lembrado da cidade
a gente só queria que nossos governantes nos enxergassem mais, afirma George, franco-brasileiro em rápida passagem na cidade.
há moradores que discutem sobre a estética da violência que aflige o bairro.
Foi certamente um ato surrealista
neosurrealista
não há que se falar em assassinato.
Ela foi velada no pequeno cemitério da região,
três e meia.
Uma multidão acompanhou a cerimônia.
A outra espiou pela janela do prédio cinza
que só cresce.
SãoPaulosão
histórias de são paulo.
domingo, 22 de outubro de 2017
sábado, 4 de março de 2017
7.
J. não pensava em voltar ao Brasil.
A situação política do país, porém, era favorável.
Em São Paulo, soube logo onde encontraria apoio. Escondeu-se nas igrejas periféricas da cidade. Escondeu-se bem, muito bem. Manifestava-se às vezes, dando susto nas pessoas. Línguas estranhas e incompreensíveis eram muito admiradas pela população local, quase da cidade. Uniu algo que estava há tempos caindo, queimando, quebrando.
Procurou se afiliar a partido. Partido não havia. Os que existiam estavam manchados de sangue. Ele detestava sangue por motivos biográficos. Criou uma nova esquerda, desta vez sim legítima. TODOS, chamava o partido. Logo conseguiu aprovação no órgão eleitoral competente e articulou financiamento público com os menos favorecidos. Primeiro São Paulo. Sua fama se disseminou no Sul, que o via como figura diferente do restante do cenário político. No Nordeste, embora tardiamente, seu retrato em pequenas folhas teve também grande impacto.
Usou cores, muitas. Um novo tipo de design, pensado por voluntários altamente competentes mobilizou cultura de massa, erudita e grandes teorias da intelectualidade paulista na veiculação de sua campanha. J. sabia de tudo. Media certo, pesava bem, tinha os olhos corretos, a boca sensível. Juntou o professorado ao mais humilde vendedor de maçãs. Dizia corretamente palavras e nomes.
Decidiu candidatar-se às eleições nacionais, mesmo sem ter ocupado grandes cargos na gestão pública ou demonstrado quais medidas seriam efetivamente implantadas em caso de vitória. Não foi fácil. No segundo turno, frente a outro candidato de esquerda, teve de utilizar um pouco dos grandes escândalos em curso no judiciário. A mídia, receosa, não o acolheu de imediato. Precisou grandes discursos, utilizou parábolas com peixes que poucos entendiam e causavam comoção.
Suas primeiras ações foram curtas. Dissolveu o legislativo. Não se acreditava mais no legislativo. Acumulou as funções de propositor e promulgador, facilitando a tramitação de leis e realizando a reforma política tão almejada pelo país. Com seis meses, tinha aprovação de grande parte da sociedade brasileira. As manifestações se encerravam facilmente com a abertura de portas de seu gabinete. Estava sempre à disposição da oposição, que se enfraquecia com as ternas palavras do grande líder. Assim que era acusado de algo, chamava os principais jornalistas de redes de televisão concorrentes e tudo se elucidava num chá às cinco da manhã (acordava cedo também).
Investidores investiram em peso no país. Nunca na história houve tão rápido crescimento do PIB, redução dos índices de analfabetismo e melhora da infraestrutura. Trens voltaram a existir e uma certa nostalgia tingiu as nuvens verde-amarelas.
J., após sete anos de mandato e um país em ordem convocou a imprensa para uma grande declaração. Entre dois de seus principais aliados disse palavras maravilhosas ao meio-dia do meio do país. O céu azul de Brasília se manteve forte enquanto era cortado pela ascensão do grande homem.
Todos aplaudiam extasiados.
terça-feira, 15 de novembro de 2016
6.
e se o céu de são paulo fosse um prédio ao contrário branco caindo a gente estaria fora ou dentro
cansei de ficar andando cada esquina tanta mesa em cada esquina tanta gente em cada mesa tanta língua em cada boca tanto dente dizendo não dizendo estou sem grana, foi mal, amigo, estou só com o cartão, aceito cartão, desculpa, não custa nem nada moço ali dentro é bem mais caro porque sim você está aqui fora mas para pagar tem de ir lá dentro pensa que não sei como funciona sei muito bem como funciona chama o garçom o garçom não vem ele nunca vem ele demora para vir vem com o vento devagar traz a conta mas esquece a máquina vocês têm que ir até lá dentro aí sim vocês entram aí sim vocês pagam aí sim vocês podem sair com a cabeça tranquila de terem pagado tudo
na volta volto a passar em cada esquina tanta roupa bonita tanto batom vermelho tanta gente rindo a cidade é realmente mais bonita daqui os carros tem ruas e rodas sobre elas e luzes que iluminam quando chove parece filme venta eles colocam um pano de plástico que impede de ventar - e também de virem os garçons - o cinema fica na rua onde já se viu cinema na rua não tem medo de ser assaltado de entrarem e pegarem todas as imagens todas as cenas todas as histórias o metrô amarelo funciona sempre a primeira parceria público privada tem que ser sempre assim o estado não dá conta de pagar tudo de ser bom pra gente o estado é muito bonzinho ajuda a gente faz trem reforma estação mas não dá conta de fazer tudo em todo lugar a gente vê o pessoal das mesas falando não dá a gente pesa muito caro impede o prosseguimento da cidade do estado do país a gente tem é que se mudar pra um país pobre
no metrô amarelo todo mundo cabe todo mundo senta mesmo quem está de pé no trem parece que todo mundo está em pé mesmo quem está sentado tem comida no trem tem gente que vende no décimo quarto novo trem desde dois mil e onze o estado é muito bom mesmo com a gente dá trem pra gente pra vila não dá nada só cobra por isso o pessoal das mesas das esquinas reclama tanto fala dos livros dos artistas do cinema porque cinema porque o último prêmio foi pra um cantor que nem escreve ficção porque ficção é isso porque ficção só existe na vila madalena mas eu moro em ferraz mas só a arte pode mudar as coisas ser gentil com a gente e não custar caro a arte parece que é trabalho mas é barato fica caro depois mas só bem depois quando todo mundo pára coça o queixo coça a barba e fala é arte isso sim é arte e vale muito valioso
no trem em pé vejo são paulo tem dias que chovem são paulo ou seria tem dias que chove são paulo a gente nem sabe falar direito se chove melhor vale ficar quieto mesmo quieto e em pé guardar isso tudo que tem dentro de tudo isso dentro da gente que chacoalha com o trem que treme que trai que troça que trava que puta que pariu passou a estação sempre a gente sempre faz isso sempre passa a estação e vai pra mais longe mais
até o trem passar de novo
sábado, 29 de outubro de 2016
5.
Pode parecer estranho quando escutamos pela primeira vez, mas todas as senhas da internet passam por André. Ele é o responsável por monitorar as trocas, mandar e-mails quando as pessoas se esquecem, informar a quantidade de dígitos e caracteres especiais exigidos.
André mora em São Paulo, mas organiza as senhas do mundo inteiro. Ele substituiu Aditya, morador de Nova Deli. Com todas essas funções, André passa muito tempo de sua vida conectado à Internet. Ele tem um caderno onde anota as suas senhas preferidas. Ele gosta muito quando os usuários escrevem mensagens amorosas a seus parceiros. Por vezes, essas senhas são curtas. A senha meusonhoexistesechamavoceteamo, por exemplo, tornou-se, depois de dois meses, esperoquequeimelentamentenofogodoinferno66. André tem predileção às senhas dos funcionários públicos. Era como se em um sistema impossível de ser decodificado, as pessoas pudessem dar margem a sua subjetividade. A senha dois oito sistemas do usuário 1263782 é metiremdaquiporfavor12. A do usuário 8754380, fosseeumaisforte3. 5margaridasvelhas. ceusemchao*. marape9. As dos usuários de aplicativos de encontros eram por vezes surpreendentes. oqueestoufazendocomminhavida, esperonaoencontrararies, naoentendonadadesignos, soudeariesmasmerecoserfeliz, mesintoterrivelmenteso, oqueprocuronaoestaaquimaseu.
Antes que chamem André de personagem surrealista, esclarecemos que sua profissão tem sido frequentemente ameaçada pelas evoluções da tecnologia. Os aplicativos de criação de senha exemplificam bem este perigo.
Certa vez, uma nova usuária de um nova rede social criou a senha olaandretudobem. André, assustado, não sabia o que fazer. Fazia parte de seu contrato o sigilo absoluto. As informações que ele tinha eram absolutamente confidenciais. Bancos, sites pornográficos, blogs, empresas de telecomunicações. Alguém com essas informações seria capaz de dominar os meios de produção, de comunicação, de prazer, de felicidade, de assombração, alterar a ordem social, política, econômica, produzir novas formas de alteridade, autoridade, de tradição.
André pediu para a usuária Silvana trocar a senha. Para confirmar, era necessário digitar os seguintes caracteres: tudoevoce. A nova senha de Silvana era precisoteconhecer. Nunca quiseram conhecer André. Aliás, por que fariam? Era apenas mais um usuário perdido em ondas turbulentas. Tinha apenas seu computador, um quarto estreito, pizza de noite, café de dia e um caderno de senhas prediletas. Anotava senhas de um lado e usuários do outro da folha do caderno vermelho pequeno. A primeira página do caderno de senhas prediletas de André era:
naosuporto
seusolhos22
tristestri
3locados
en6mesmados
longedesi
pudera
fausto99
amardenovoamar
Nunca André poderia responder Silvana. André respondeu Silvana digameonde aqui aquionde onde esta estouso querotemandarminhablusaamarela suablusaamarelameesquentaecomosemeabracasse mandemealgoseu. André não tinha nada apenas seu computador, um quarto estreito, pizza de noite, café de dia e um caderno de senhas prediletas pequeno vermelho.
Silvana recebeu o pequeno caderno de senhas vermelho de André.
Nunca mais respondeu André.
sábado, 8 de outubro de 2016
45.
Um dos primeiros atos do novo prefeito foi mudar o nome da cidade.
SPM, ou Sao Paulo Metropolitan foi aprovado por unanimidade por seus acionários. Com esse nome, atrairemos mais investidores e poderemos concorrer em pé de igualidade com New York, disse um deles.
Mesmo com a arrecadação em queda, a renda per capita da cidade atingiu índices nunca antes vistos em um continente como aquele em que (por um erro de geografia facilmente corrigível) ela se encontra.
A cidade tinha muita gente, declarou o mayor. O que fizemos foi trazer a modernidade. Em praticamente dois anos, reduzimos pela metade o número de pessoas abaixo da linha da pobreza. Além disso, corrigimos a quantidade de cafeína e lactose nas bebidas típicas das comunidades carentes (neste momento ele se desculpou por não se lembrar exatamente o nome da bebida). Há muito para se lembrar, disse de maneira sincera.
O reconhecimento é gratificante e vem das ruas. Como afirma este cidadão comum de Pinheiros, "todos agradecemos pelo retorno do aumento da velocidade não apenas nas marginais mas também nas grandes avenidas na cidade. Era horrível, demorávamos praticamente trinta minutos para voltar do trabalho. Agora, com vinte minutos, posso passar muito mais tempo com minha família".
O prefeito ressalta que tal medida seria ineficaz sem a redução do número de corredores de ônibus na metrópole. "Eles eram grandes e lhe davam medo", diz um de seus assessores.
Mas nem tudo foram flores na cidade cinza. O prefeito encarou uma grave crise hídrica nos meses de julho e agosto, imprevista como aquela do mesmo período do último ano. Além disso, nunca choveu tanto nos meses de janeiro e fevereiro.
A quantidade de incêndios cresceu também consideravelmente. Graças à capacidade de gestão do administrador da nova cidade, grandes edifícios nasceram das cinzas. A cidade renasce como fênix.
A taxa de desemprego está estável. O que é bom segundo nossos especialistas. A tendência é que todos possam conseguir os empregos de seus sonhos nos novos empreendimentos imobiliários da cidade, com duração aproximada de dois anos.
A modéstia do prefeito ressalva: "Não conseguiria enfrentar nada sem o apoio do senhor governador, meu candidato à presidente. Com ele, queremos fazer mais e mais rápido. Conduzir o país ao patamar da cidade."
A eficiência enfim nasceu na sala. Grande e forte e protegida.
domingo, 21 de agosto de 2016
4.
Valter tinha a estranha capacidade de ver os pensamentos dos outros. Mas não era de forma ordenada como no facebook. As imagens e sons (mesmo ele tem essa dúvida do que seria um pensamento) vinham feito cachoeira e sempre em lugares muito cheios, como as estações de metrô.
Valter está chegando. Ele está nas catracas da Sé, esperando alguém chegar também. Como vai, Valter? A concentração é difícil, é possível ver em seus olhos o esforço que faz para decodificar a pergunta e formular a resposta.
Bem, deixemos Valter para lá e vejamos como se comporta sozinho.
Ele está próximo à primeira catraca da direita, sentido de quem sai da estação. Em todo o resto da estação pessoas correm andam pulam em escadas plataformas e vagões
O que vou comer quando chegar?
Por que golpe?
Ela fez isso de novo.
Preciso ler Murilo Mendes
É engraçado quando falam Marrrrx (com o r assim)
Preciso pensar sobre
Queria comer alguma coisa com alho
Se for rápido chego logo.
Se fosse verde, talvez
Se me amasse, talvez.
Ele está agitado, quanta informação. Quantas histórias fogem às pessoas. De quantos amores teve notícia, quantas músicas pegajosas teve de escutar, quanto ódio misturado em tanto lugar, quanto carinho deixou de existir, quanto tempo ela demora para chegar?
Merda, desci na estação errada.
Que moça bonita.
Que cara escroto.
Me sinto só
Me sinto incrível
Preciso pensar em deus
Preciso inventar um Deus e acreditar nele
Preciso pensar em minha sexualidade
Preciso deixar de pensar tanto em sexo
Gostaria de ter conhecido Freud
Porra, o Gregório está em todo lugar agora.
De Matos? Não, du vivier
Será que alguém vai descobrir que vejo Masterchef?
Por que tem tantos países na Europa e uma só África só tão longe daqui?
E se ao invés de vagões, fossem barquinhos de papel levando as pessoas para onde elas realmente querem?
Quantas mãos cabem no universo?
Para facilitar as contas, quantos narizes?
Queria que o Brasil fosse bem longe daqui
Eu perguntava duiulwannadance?
Quando se canta todo mundo bole, quando se canta todo mundo bole.
Valter começou a se perder. Essa não é a primeira vez que isso acontece. Quais são seus pensamentos e quais são os dos outros? Preciso sair daqui
Preciso chegar logo
Quando souberem do que sei. Ela nunca demorou tanto.
Estou com fome.
Estou com medo.
Valter começou a perceber que todos pensavam em verso.
Todos seriam poetas.
Ou os poetas deixariam de existir.
Quem hoje escreve em verso?
Se pensamos em verso, a prosa existe?
Mas e se o verso pra ser verso precisa ser assim curtinho assim ressoado assim pra ser som sendo som fundindo palavra verso sujeito e mundo, existe poesia?
Digo, se precisa dizer/escrever, existe verso?
Se a / não existia antes, isso é verso?
Finalmente ela chegou. É possível ver a paz se fundindo ao rosto de Valter. Ele a beijou, segurou suas mãos e subiram as escadas da Sé.
(Descendo, alguém disse: Universo)
Valter está chegando. Ele está nas catracas da Sé, esperando alguém chegar também. Como vai, Valter? A concentração é difícil, é possível ver em seus olhos o esforço que faz para decodificar a pergunta e formular a resposta.
Bem, deixemos Valter para lá e vejamos como se comporta sozinho.
Ele está próximo à primeira catraca da direita, sentido de quem sai da estação. Em todo o resto da estação pessoas correm andam pulam em escadas plataformas e vagões
O que vou comer quando chegar?
Por que golpe?
Ela fez isso de novo.
Preciso ler Murilo Mendes
É engraçado quando falam Marrrrx (com o r assim)
Preciso pensar sobre
Queria comer alguma coisa com alho
Se for rápido chego logo.
Se fosse verde, talvez
Se me amasse, talvez.
Ele está agitado, quanta informação. Quantas histórias fogem às pessoas. De quantos amores teve notícia, quantas músicas pegajosas teve de escutar, quanto ódio misturado em tanto lugar, quanto carinho deixou de existir, quanto tempo ela demora para chegar?
Merda, desci na estação errada.
Que moça bonita.
Que cara escroto.
Me sinto só
Me sinto incrível
Preciso pensar em deus
Preciso inventar um Deus e acreditar nele
Preciso pensar em minha sexualidade
Preciso deixar de pensar tanto em sexo
Gostaria de ter conhecido Freud
Porra, o Gregório está em todo lugar agora.
De Matos? Não, du vivier
Será que alguém vai descobrir que vejo Masterchef?
Por que tem tantos países na Europa e uma só África só tão longe daqui?
E se ao invés de vagões, fossem barquinhos de papel levando as pessoas para onde elas realmente querem?
Quantas mãos cabem no universo?
Para facilitar as contas, quantos narizes?
Queria que o Brasil fosse bem longe daqui
Eu perguntava duiulwannadance?
Quando se canta todo mundo bole, quando se canta todo mundo bole.
Valter começou a se perder. Essa não é a primeira vez que isso acontece. Quais são seus pensamentos e quais são os dos outros? Preciso sair daqui
Preciso chegar logo
Quando souberem do que sei. Ela nunca demorou tanto.
Estou com fome.
Estou com medo.
Valter começou a perceber que todos pensavam em verso.
Todos seriam poetas.
Ou os poetas deixariam de existir.
Quem hoje escreve em verso?
Se pensamos em verso, a prosa existe?
Mas e se o verso pra ser verso precisa ser assim curtinho assim ressoado assim pra ser som sendo som fundindo palavra verso sujeito e mundo, existe poesia?
Digo, se precisa dizer/escrever, existe verso?
Se a / não existia antes, isso é verso?
Finalmente ela chegou. É possível ver a paz se fundindo ao rosto de Valter. Ele a beijou, segurou suas mãos e subiram as escadas da Sé.
(Descendo, alguém disse: Universo)
domingo, 19 de junho de 2016
3.
A avenida paulista é um labirinto de uma rua só.
Dizem que jogaram o minotauro lá e ele virou comida de food truck. Fizeram dele nove hamburguezinhos com cebola caramelizada. Três pessoas não gostaram muito. Jogaram metade de seus lanches no lixo. Uma pessoa com fome foi lá e comeu as três metades.
Desde então, as pessoas que comeram os hamburguezinhos não saíram do labirinto que é a paulista. O prefeito até liberou a famosa avenida aos domingos, mas todos que ali entraram não chegaram do outro lado. Certa tensão cresceu na cidade. Colocaram a culpa no prefeito. Quem mandou liberar a paulista aos domingos. Outros condenaram a terrível gourmetização pela qual passa a gastronomia local. Food trucks, que ideia!
Certo é que o medo cresceu do concreto e atingiu as pessoas que ali se perdiam. Hebdomadários relatavam casos dos mais violentos crimes inventados e cometidos naquele lugar, que deixou de ser ocupado pelos habituais ternos, gravatas e pessoas ocupadas.
O prefeito, que não tem filha, não pode fazer nada.
Uma moça, costuradeira, cansada de esperar alguém de espada chegar, aventurou-se com seu novelo de lã. O novelo de lã servia para não se perder no labirinto de asfalto. Ela bordou a todos. Carros e metrôs ficaram surpresos com as teias que os impediam de passar. As bicicletas também não entenderam tão facilmente. Fizeram protestos. Todos pelados. Foi engraçado, mas logo passou.
Perto da augusta, todos com carne de minotauro estavam cercados. Atrás, bordados de lã e a moça. Encurralados pela consolação, os minotauros perguntaram o que estava acontecendo. A moça explicou que o restante da população paulistana estava com medo. Eles, todos muito sensíveis, perguntaram por que. Ela não tinha resposta, apenas o novelo de lã (aliás, ele era rosa). Eles não podiam suportar o medo do que seria lá fora, agora com essa onda de terror alimentada pela mídia local contra os perdidos da paulista. E então chamaram a polícia. A princípio, um diálogo foi tentado com bombas de gás lacrimogênio. Como não houve resposta, os policiais aguardaram resposta. Após duas horas, já era quase segunda, a fumaça dissipou-se e todos estavam no chão.
Não se sabe muito bem se mortos ou dormindo. Por via das dúvidas, foram postos em ruas menos conhecidas e com entradas e saídas.
A menina foi condenada a limpar todo aquele emaranhado rosa. Onde já se viu um novelo de lã rosa parar a avenida paulista.
Dizem que jogaram o minotauro lá e ele virou comida de food truck. Fizeram dele nove hamburguezinhos com cebola caramelizada. Três pessoas não gostaram muito. Jogaram metade de seus lanches no lixo. Uma pessoa com fome foi lá e comeu as três metades.
Desde então, as pessoas que comeram os hamburguezinhos não saíram do labirinto que é a paulista. O prefeito até liberou a famosa avenida aos domingos, mas todos que ali entraram não chegaram do outro lado. Certa tensão cresceu na cidade. Colocaram a culpa no prefeito. Quem mandou liberar a paulista aos domingos. Outros condenaram a terrível gourmetização pela qual passa a gastronomia local. Food trucks, que ideia!
Certo é que o medo cresceu do concreto e atingiu as pessoas que ali se perdiam. Hebdomadários relatavam casos dos mais violentos crimes inventados e cometidos naquele lugar, que deixou de ser ocupado pelos habituais ternos, gravatas e pessoas ocupadas.
O prefeito, que não tem filha, não pode fazer nada.
Uma moça, costuradeira, cansada de esperar alguém de espada chegar, aventurou-se com seu novelo de lã. O novelo de lã servia para não se perder no labirinto de asfalto. Ela bordou a todos. Carros e metrôs ficaram surpresos com as teias que os impediam de passar. As bicicletas também não entenderam tão facilmente. Fizeram protestos. Todos pelados. Foi engraçado, mas logo passou.
Perto da augusta, todos com carne de minotauro estavam cercados. Atrás, bordados de lã e a moça. Encurralados pela consolação, os minotauros perguntaram o que estava acontecendo. A moça explicou que o restante da população paulistana estava com medo. Eles, todos muito sensíveis, perguntaram por que. Ela não tinha resposta, apenas o novelo de lã (aliás, ele era rosa). Eles não podiam suportar o medo do que seria lá fora, agora com essa onda de terror alimentada pela mídia local contra os perdidos da paulista. E então chamaram a polícia. A princípio, um diálogo foi tentado com bombas de gás lacrimogênio. Como não houve resposta, os policiais aguardaram resposta. Após duas horas, já era quase segunda, a fumaça dissipou-se e todos estavam no chão.
Não se sabe muito bem se mortos ou dormindo. Por via das dúvidas, foram postos em ruas menos conhecidas e com entradas e saídas.
A menina foi condenada a limpar todo aquele emaranhado rosa. Onde já se viu um novelo de lã rosa parar a avenida paulista.
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