A avenida paulista é um labirinto de uma rua só.
Dizem que jogaram o minotauro lá e ele virou comida de food truck. Fizeram dele nove hamburguezinhos com cebola caramelizada. Três pessoas não gostaram muito. Jogaram metade de seus lanches no lixo. Uma pessoa com fome foi lá e comeu as três metades.
Desde então, as pessoas que comeram os hamburguezinhos não saíram do labirinto que é a paulista. O prefeito até liberou a famosa avenida aos domingos, mas todos que ali entraram não chegaram do outro lado. Certa tensão cresceu na cidade. Colocaram a culpa no prefeito. Quem mandou liberar a paulista aos domingos. Outros condenaram a terrível gourmetização pela qual passa a gastronomia local. Food trucks, que ideia!
Certo é que o medo cresceu do concreto e atingiu as pessoas que ali se perdiam. Hebdomadários relatavam casos dos mais violentos crimes inventados e cometidos naquele lugar, que deixou de ser ocupado pelos habituais ternos, gravatas e pessoas ocupadas.
O prefeito, que não tem filha, não pode fazer nada.
Uma moça, costuradeira, cansada de esperar alguém de espada chegar, aventurou-se com seu novelo de lã. O novelo de lã servia para não se perder no labirinto de asfalto. Ela bordou a todos. Carros e metrôs ficaram surpresos com as teias que os impediam de passar. As bicicletas também não entenderam tão facilmente. Fizeram protestos. Todos pelados. Foi engraçado, mas logo passou.
Perto da augusta, todos com carne de minotauro estavam cercados. Atrás, bordados de lã e a moça. Encurralados pela consolação, os minotauros perguntaram o que estava acontecendo. A moça explicou que o restante da população paulistana estava com medo. Eles, todos muito sensíveis, perguntaram por que. Ela não tinha resposta, apenas o novelo de lã (aliás, ele era rosa). Eles não podiam suportar o medo do que seria lá fora, agora com essa onda de terror alimentada pela mídia local contra os perdidos da paulista. E então chamaram a polícia. A princípio, um diálogo foi tentado com bombas de gás lacrimogênio. Como não houve resposta, os policiais aguardaram resposta. Após duas horas, já era quase segunda, a fumaça dissipou-se e todos estavam no chão.
Não se sabe muito bem se mortos ou dormindo. Por via das dúvidas, foram postos em ruas menos conhecidas e com entradas e saídas.
A menina foi condenada a limpar todo aquele emaranhado rosa. Onde já se viu um novelo de lã rosa parar a avenida paulista.
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